Montanha Mágica* Arte e Paisagem

1. A Montanha em Chamas: o Tempo do Fogo

 

Desde 2018, a Montanha Mágica* (montanhamagica.ubi.pt) vem constituindo um campo de aproximação — não um programa fechado, mas um dispositivo em deriva — onde arte, paisagem, acção e pensamento se entrecruzam num regime de atenção às formas instáveis do território. A montanha, aqui, nunca foi paisagem no sentido acomodado do termo; foi antes superfície de inscrição, lugar de tensões, dobra onde o visível e o invisível se articulam. Em 2026, no seio da iA* Unidade de Investigação em Artes, a Montanha Mágica* deixa de ser apenas um acontecimento periódico para se afirmar como estrutura contínua, laboratório em permanência, onde a investigação baseada na prática se torna método e condição.

 

Se as edições anteriores ensaiaram modos de ver — entre representação, experiência, imaginário e construção simbólica —, esta quinta edição desloca a questão: não já como representar a paisagem, mas como permanecer nela quando esta se torna irrepresentável. A montanha que ardeu não é apenas um objecto de contemplação; é um acontecimento. O fogo — com o seu corte, a sua violência e a sua ambiguidade — introduz uma descontinuidade radical: incinera, obscurece, reduz a cinza, mas também expõe, reconfigura, devolve à superfície e ilumina aquilo que estava soterrado. Fumo, carvão, solo aberto, matéria em suspensão. E depois, talvez, o regresso: ervas mínimas, tonalidades inesperadas, uma respiração lenta da terra.

 

Neste intervalo — entre devastação e regeneração — inscrevem-se territórios empobrecidos, populações esquecidas, ecossistemas interrompidos, vidas deslocadas. A montanha torna-se, assim, um campo de tensão onde a catástrofe não é tema, mas condição crítica, difícil, por vezes traumática, que resiste à estetização e convoca uma ética do olhar. Olhar e ver uma montanha queimada implica tempo, distância, risco; implica aceitar que o visível falha, que a paisagem se torna opaca, que o mundo se apresenta como resto e como possibilidade.

É neste ponto que a MM* se situa: não como lugar de resposta, mas como espaço onde se inquirem e experimentam formas de permanecer atento.

 

 

 

2. Chamada de Propostas

 

A Montanha Mágica* 2026 convida artistas e investigadores/as a submeter propostas que não se limitem a representar a paisagem, mas que operem nela — que a atravessem, que a interroguem e problematizem. Procuram-se práticas que articulem criação e investigação, que trabalhem na espessura do território, que assumam a paisagem como campo expandido onde o estético, o político, o ecológico e o sensível se entrelaçam.

 

São acolhidos projectos artísticos, residências, investigações baseadas na prática, exposições, comunicações, ensaios visuais e fílmicos, cartografias, arquivos, dispositivos editoriais, instalações e outras formas de investigação-criação incluindo propostas oriundas da arquitectura, do desenho e de práticas interdisciplinares, desde que entendidas como modos de produzir conhecimento situado. 

 

Interessa particularmente aquilo que se faz a partir do lugar — não como identidade fixa, mas como experiência crítica —, bem como propostas que explorem a instabilidade contemporânea da paisagem: a sua condição ambígua e híbrida, a sua dimensão afectiva, a sua inscrição nas crises ecológicas e sociais do presente, e as múltiplas relações entre território, memória, infra-estrutura, ecologias em transformação e agências humanas e não-humanas.

 

Entre o local e o cosmopolita, entre o gesto mínimo e a intervenção expandida, a chamada permanece deliberadamente aberta. Não se trata de ilustrar o fogo, mas de pensar com ele; não de tematizar a catástrofe, mas de a habitar conceptualmente, recusando tanto o pathos quanto a neutralização. A Montanha Mágica* procura, assim, práticas que aceitem a dificuldade do olhar, que operem na fricção entre visível e invisível, entre perda e possibilidade, entre aquilo que desaparece e aquilo que persiste.

 

Valorizam-se particularmente propostas que trabalhem a paisagem através de processos de leitura, inscrição, documentação, mapeamento, contra-mapeamento e recomposição territorial, em diferentes escalas e temporalidades, e que tomem o território como campo de relações, de conflitos, de memória e de transformação.

 

As propostas seleccionadas integrarão o conjunto programático do projecto — simpósio, exposições, residências, laboratórios — e poderão dar origem a publicações científicas e projectos editoriais, contribuindo para a consolidação de um campo de investigação artística onde a paisagem é entendida como experiência.

 

 

 

3. Calendário

 

A edição de 2026 desenvolve-se como um processo contínuo, distribuído ao longo do ano, onde o tempo não é apenas cronologia, mas matéria de trabalho. Num primeiro momento, abre-se a chamada internacional, convocando propostas e delineando um mapa provisório de intenções. Segue-se a fase de selecção e configuração dos projectos, onde se começa a desenhar o campo de relações que sustentará o programa.

 

Entre a primavera e o início do outono, decorrem residências, laboratórios e intervenções no território, momentos de imersão onde a investigação se faz no contacto directo com a montanha, com as suas superfícies e as suas fracturas. Este período constitui o núcleo processual do projecto, onde as práticas se desenvolvem, se testam, se transformam.

 

Nos meses finais do ano, intensifica-se a produção e a formalização dos resultados, culminando no simpósio internacional, a realizar na Covilhã, nos dias 10 e 11 de Dezembro de 2026. Este não será um ponto de chegada, mas um momento de condensação — lugar de partilha, de confronto e de abertura — a partir do qual o projecto se reinscreve na sua própria continuidade.

 

Assim, a Montanha Mágica* não se esgota no evento; prolonga-se como estrutura, como arquivo em construção, como campo onde a paisagem — mesmo quando queimada — continua a exigir que se aprenda a olhar.

 

Apresentação de Propostas

Por email: montanhamagica@ubi.pt, até 15 de Junho

 

DIVULGAÇÃO DO PROGRAMA — 15 de Julho de 2026

REUNIÃO DA COMISSÃO CIENTÍFICA — 9 de Dezembro de 2026

EXPEDIÇÃO — 9 de Dezembro / Visita à Serra do Açor

RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS / PROJECTOS — Junho a Novembro de 2026

EXPOSIÇÕES — 10 de Dezembro de 2026, inaugurações

SIMPÓSIO — 10 e 11 de Dezembro de 2026, UBI

 

 

 

 

© 2026 Francisco Paiva / João Sequeira

iA* Investigação em Artes / PArTE – Paisagem, Património, Arte, Território e Ecologia

iartes.ubi.pt / montanhamagica.ubi.pt

Sub-temas / Eixos de Investigação / Criação

 

  • O tempo do fogo
    Antes, durante e depois: duração, ruptura e persistência na paisagem queimada
  • Matérias da combustão
    Fumo, cinza, carvão, solo exposto: materialidades, resíduos e vestígios
  • Paisagem em estado de catástrofe
    Entre destruição e possibilidade: a catástrofe como condição crítica
  • Regeneração e recomposição
    Ecologias emergentes, sucessão vegetal, temporalidades lentas
  • Montanha: vulnerabilidade e resistência
    Territórios extremos entre fragilidade ecológica e persistência
  • Ecologias interrompidas
    Deslocação de espécies, desaparecimento, reconfiguração dos habitats
  • Humanos e não-humanos
    Relações, fricções e interdependências em contextos de crise
  • Territórios esquecidos
    Desertificação, abandono, empobrecimento e marginalidade
  • Comunidade e memória
    Experiência vivida, trauma, arquivo e transmissão
  • Paisagem como inscrição
    Campo de processos históricos, culturais e políticos
  • Práticas artísticas situadas
    Arte como intervenção, investigação e produção de conhecimento
  • Representação e irrepresentável
    Limites da imagem perante a devastação
  • Estética e ética da paisagem
    Entre a estetização e a responsabilidade
  • Cartografias críticas
    Mapeamento, contra-mapeamento e leitura do território
  • Escalas da paisagem
    Do local ao global: interdependências e sistemas
  • Arquitectura, infra-estrutura e território
    Construção, abandono e reconfiguração do espaço
  • Paisagens híbridas
    Entre natural e artificial, orgânico e técnico
  • Corpo, percepção e experiência
    Habitar, caminhar, olhar, sentir
  • Arquivo, documentação e testemunho
    Imagem, som, narrativa e memória da paisagem
  • Arte e crise ecológica
    Práticas contemporâneas face ao Antropoceno
  • Simbiose, coabitação e ecologias relacionais
    Relações multiespécies, dependência mútua e formas de convivência no território
  • Desenho, pintura e imagem em movimento

          Modos visuais de leitura, projecção, inscrição e imaginação da paisagem

Contactos

Geral: montanhamagica@ubi.pt

Localização

Universidade da Beira Interior

Faculdade de Artes e Letras

iA* Unidade de Investigação em Artes (UID/06428/2025)

Departamento de Artes

Rua Marquês D’Ávila e Bolama
6201-001 Covilhã, Portugal

 

MM*2026

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